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Como funciona a coleta de óvulos na prática

há 11 minutos
5 min de leitura

A coleta de óvulos costuma ser uma das etapas que mais gera dúvidas em quem considera fertilização in vitro, congelamento de óvulos ou preservação da fertilidade antes de um tratamento oncológico. Saber como funciona a coleta de óvulos ajuda a substituir parte da ansiedade por informações concretas: trata-se de um procedimento planejado, breve e realizado com sedação, após um período de acompanhamento cuidadoso da resposta dos ovários às medicações.

Mais do que uma etapa técnica, esse momento faz parte de um projeto de vida. Por isso, o tratamento deve considerar não apenas exames e protocolos, mas também idade, reserva ovariana, histórico de saúde, planos reprodutivos e a forma como cada pessoa vivencia o processo.

Como funciona a coleta de óvulos?

A coleta de óvulos, também chamada de captação ou punção folicular, é o procedimento usado para retirar os óvulos que amadureceram nos ovários após a estimulação ovariana. Esses óvulos podem ser fertilizados em laboratório para um tratamento de fertilização in vitro ou congelados para serem utilizados no futuro.

O procedimento é feito por via transvaginal, com auxílio da ultrassonografia. Uma agulha fina, acoplada ao transdutor vaginal, alcança os folículos ovarianos - pequenas estruturas preenchidas por líquido onde os óvulos se desenvolvem. O líquido de cada folículo é aspirado e encaminhado imediatamente ao laboratório de embriologia, onde a equipe procura e avalia os óvulos obtidos.

A paciente permanece sedada durante a coleta. Isso significa que não sente dor no momento da punção e, em geral, não se recorda do procedimento. A captação costuma durar entre 15 e 30 minutos, embora o tempo possa variar de acordo com o número e a localização dos folículos.

Antes da coleta: por que os ovários são estimulados?

Em um ciclo menstrual espontâneo, normalmente apenas um óvulo chega à maturidade. Para aumentar a chance de obter mais óvulos em um mesmo ciclo, utilizamos medicamentos hormonais que estimulam o desenvolvimento de vários folículos simultaneamente.

As medicações são aplicadas, na maior parte dos casos, por injeções subcutâneas no abdome. O esquema não é igual para todas as pacientes. A dose e o tipo de medicamento são definidos conforme fatores como idade, contagem de folículos antrais na ultrassonografia, hormônio antimülleriano, peso, diagnóstico de síndrome dos ovários policísticos, cirurgias prévias e resposta a tratamentos anteriores.

Durante cerca de 8 a 12 dias, são realizados acompanhamentos com ultrassonografia transvaginal e, quando indicado, exames hormonais. Esses controles permitem verificar o crescimento dos folículos e ajustar as doses se necessário. Não se trata de acelerar o corpo indiscriminadamente, mas de conduzir o amadurecimento folicular com segurança e precisão.

Quando os folículos atingem tamanho e aspecto adequados, é aplicada uma medicação final, conhecida como gatilho de maturação. O horário dessa aplicação é decisivo: a coleta é programada habitualmente cerca de 34 a 36 horas depois. Seguir a orientação com rigor é essencial para que os óvulos tenham melhor possibilidade de maturidade no momento da captação.

Exames e avaliação individual fazem diferença

Antes de iniciar o ciclo, a consulta especializada organiza o planejamento e identifica cuidados necessários. Podem ser solicitados exames de reserva ovariana, ultrassonografia, sorologias, avaliação do útero e, conforme o caso, investigação de infertilidade do casal.

Para quem irá realizar fertilização in vitro, a avaliação seminal também é parte importante do planejamento. Para mulheres que desejam congelar óvulos, a conversa inclui uma perspectiva realista sobre idade e chances futuras. Congelar óvulos preserva possibilidades reprodutivas, mas não garante uma gestação futura. A qualidade dos óvulos está fortemente relacionada à idade no momento da coleta.

O que acontece no dia do procedimento

No dia agendado, a paciente deve comparecer à clínica seguindo as orientações de jejum e acompanhada por uma pessoa adulta, já que não poderá dirigir após a sedação. É recomendável usar roupas confortáveis e separar o dia para repousar, mesmo que muitas pessoas se sintam bem poucas horas depois.

Antes da coleta, a equipe revisa informações clínicas, confirma o horário do gatilho e prepara a sedação. Um médico anestesista acompanha todo o procedimento, monitorando pressão arterial, oxigenação, frequência cardíaca e nível de sedação.

Após a punção, a paciente é levada para uma área de recuperação. É comum permanecer em observação por uma ou duas horas, até estar desperta, confortável e liberada com segurança. Enquanto isso, no laboratório, os folículos aspirados já são examinados para identificar os óvulos recuperados.

Vale lembrar que nem todo folículo contém um óvulo e nem todo óvulo encontrado estará maduro. Essa diferença é esperada na reprodução assistida. Por esse motivo, a equipe costuma conversar sobre estimativas, mas evita promessas baseadas apenas na contagem de folículos vista na ultrassonografia.

A coleta de óvulos dói? Como é a recuperação?

Durante a coleta, a sedação evita dor e desconforto. Depois do procedimento, algumas pacientes apresentam cólicas leves a moderadas, sensação de pressão no baixo-ventre, sonolência, pequeno sangramento vaginal ou distensão abdominal. Em geral, esses sintomas melhoram em um ou dois dias com repouso relativo, hidratação e as medicações prescritas.

A maioria consegue retomar atividades leves no dia seguinte. Exercícios intensos, relações sexuais e atividades de impacto normalmente devem ser evitados por alguns dias, pois os ovários permanecem aumentados temporariamente após a estimulação. As recomendações podem mudar conforme a resposta ovariana e os sintomas de cada paciente.

Alguns sinais exigem contato imediato com a equipe médica: dor abdominal forte ou progressiva, sangramento intenso, falta de ar, desmaio, vômitos persistentes, febre ou aumento rápido do inchaço abdominal. Embora complicações sejam incomuns, a orientação individual e o acompanhamento próximo são fundamentais.

Quais são os riscos da coleta de óvulos?

A punção folicular é considerada um procedimento seguro quando realizada por equipe experiente, em ambiente apropriado e com indicação bem avaliada. Ainda assim, como todo procedimento invasivo, envolve riscos que devem ser discutidos de forma transparente.

Pode haver sangramento, infecção, lesão de estruturas próximas e reações relacionadas à sedação, embora essas ocorrências sejam raras. Outro ponto de atenção é a síndrome de hiperestimulação ovariana, uma resposta exagerada dos ovários aos hormônios. Ela é mais frequente em alguns perfis, como pacientes jovens, com síndrome dos ovários policísticos ou grande número de folículos.

Hoje, protocolos individualizados, medicamentos mais seguros e estratégias específicas para o gatilho e o congelamento de embriões reduziram de maneira importante o risco de formas graves. Ainda assim, prevenir depende de monitoramento adequado e de comunicação franca sobre sintomas após a coleta.

O que é feito com os óvulos depois?

O destino dos óvulos depende do objetivo do tratamento. No congelamento de óvulos, aqueles que estão maduros são vitrificados, uma técnica de congelamento rápido que busca preservar sua estrutura para uso posterior. Eles ficam armazenados até que a paciente decida utilizá-los, dentro dos limites éticos e legais aplicáveis.

Na fertilização in vitro, os óvulos maduros são fertilizados em laboratório com espermatozoides. A fertilização pode ocorrer pela técnica convencional ou por injeção intracitoplasmática de espermatozoide, a ICSI, conforme a indicação clínica. Os embriões resultantes são acompanhados por alguns dias antes da transferência para o útero ou do congelamento.

O número de óvulos coletados é relevante, mas não é a única medida de sucesso. Há uma sequência biológica: óvulos obtidos, óvulos maduros, óvulos fertilizados, embriões em desenvolvimento e, finalmente, possibilidade de implantação e gestação. Cada etapa tem perdas naturais, especialmente com o avanço da idade. Uma conversa responsável transforma números em expectativas possíveis, sem retirar espaço para a esperança.

Uma decisão técnica, pessoal e possível

Para algumas mulheres, a coleta de óvulos representa o início de uma FIV após meses ou anos de tentativas. Para outras, é uma escolha de preservação de fertilidade diante do adiamento da maternidade, de uma endometriose, de risco de redução da reserva ovariana ou de um diagnóstico de câncer. Em casais femininos e na maternidade solo, também pode ser parte de um caminho cuidadosamente planejado para formar uma família.

Não existe um momento universalmente certo, nem um protocolo que sirva para todas as histórias. Existe a possibilidade de avaliar o cenário reprodutivo atual, entender as alternativas e tomar decisões com informação, acolhimento e acompanhamento médico. Quando o processo é individualizado, a coleta deixa de ser apenas um procedimento e passa a ser uma etapa conduzida com segurança em direção ao projeto parental de cada pessoa.

 
 
 

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